“Se você quer levar escolas médicas para locais inóspitos é preciso levar estrutura para esses locais. Há algumas boas experiências nesse sentido, como na África do Sul e Austrália. Para o criar um polo de saúde, para levar o médico para o interior, é preciso criar condições para isso”, avalia Luís Fernando Adan.
“Não existe nada de especial em uma escola de Medicina. Não somos diferentes de ninguém. Mas precisamos de condições específicas”.
Mas, há opiniões contrárias à medida. Ex-diretora da mesma Faculdade de Medicina da Ufba, a professora Lorene Pinto, que atualmente ocupa o posto de pró- reitora de desenvolvimento pessoal, avalia que a necessidade de professores na área de saúde é muito vinculada ao modelo de assistência que o país decide oferecer. No caso do Brasil, por exemplo, onde vigora o Sistema Único de Saúde (SUS), uma das premissas é que a atenção primária esteja disponível em todos os lugares e para toda a população.
"Para termos esse formato, o número de médicos que temos ainda não é suficiente para atender o que é previsto pela constituição e pelas leis orgânicas da saúde. Não temos médicos suficientes para dar a atenção primária para uma população do tamanho do Brasil. Agora, se não formos mais cumprir o modelo de universalização da saúde, vai ter que mudar a legislação e a lei orgânica da saúde", destaca Lorene Pinto.
Segundo ela, é preciso entende qual o modelo de saúde que se quer. Mesmo com toda a ampliação na formação médica, ela diz que o número de profissionais é aquém do ideal.
“Porque, além da atenção primária, há a necessidade de especialistas. Quanto mais sobrevida a população tem, mais aparecem as doenças crônicas. Temos uma população imensa, a legislação do sistema de saúde tem 30 anos e ainda não conseguimos cumpri-la”, observa. “Para a criação de novos cursos, não estava uma coisa à toa. As entidades médicas se posicionaram contra porque querem uma medicina mais privativa. O discurso de defender o SUS não é para todo mundo”.
A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) divulgou nota repudiando a decisão de proibir a criação de novos cursos de medicina. “O governo federal optou por atender ao clamor de uma política da classe médica, em detrimento das reais e urgentes necessidades da população brasileira. Segue na contramão das necessidades brasileiras, além de possuir equívocos legais e ignorar aspectos relevantes da regulamentação da educação superior”, diz a nota. “Um absurdo, em especial em um país que tem o déficit de profissionais na área como o nosso”, disse Janguiê Diniz, diretor presidente da ABMES.
Médicos se concentram em Salvador
Os 20.708 médicos que atendem uma população de 15,3 milhões de pessoas em toda a Bahia conferem uma proporção de 1,35 profissionais por mil habitantes. Os médicos especialistas são 57,5% do total de profissionais, contra 42,5% de generalistas, o que dá uma razão de 1,36 especialista para cada generalista. Os homens são 53,7% dos profissionais, contra 46,3% do sexo feminino.
Enquanto isso, em Salvador, moram 2,9 milhões de pessoas, que são atendidas por 12.232 médicos, o que dá uma proporção de 4,14 profissionais por mil habitantes e uma concentração de 59,1% de médicos morando na capital. Desses profissionais, 51,9% são do sexo feminino e 48,1%, masculino. Os especialistas são 65,2% e os generalistas, 34,8% dos médicos que atendem na capital baiana. Para os conselhos de Medicina, os números apresentados confirmam o equívoco de se enxergar o aumento da população de médicos como solução para resolver as dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
Para uma população de 207,7 milhões de pessoas, o Brasil tem hoje 452,8 mil médicos, o que corresponde a 2,18 médicos por mil habitantes. Os homens são maioria nessa profissão, 55,1%, enquanto as mulheres são 44,9%. Em 2010, data de realização da primeira demografia médica, as mulheres eram 41% do conjunto de profissionais.

