Traduzida em bom português, essa é a proposta feita na última segunda-feira (5) num grupo do Facebook sobre transplantes na Bahia. O autor do texto é um rapaz chamado Craig Jonhson, supostamente da Nigéria, interessado em comprar um rim. Ele fez a proposta para os cerca de 40 mil membros da página “Transplantes Bahia”. Somente no estado, há 838 pessoas esperando por um rim e, no ano passado, 1.131 morreram enquanto aguardavam pelo órgão. Uma pessoa chegou a se interessar e se colocou à disposição para vender o órgão.
Virou caso de polícia. As imagens com a proposta de Craig Jonhson foram levadas ontem ao Grupo Especializado de Repressão aos Crimes por Meios Eletrônicos (GME), da Polícia Civil da Bahia, que vai investigar. É que a página onde a proposta de compra do ruim foi feita pertence à Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab). A coordenação de comunicação digital da pasta desativou os comentários e excluiu a postagem, depois de dois dias.
Após longa espera, José Vasconcelos recebeu um novo rim há 4 anos; ele lamenta o golpe virtual (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)
“Temos que ter cuidados maiores. Com o físico, com a alimentação e, principalmente, com a rigidez dos medicamentos. Mas depois de transplantado, hoje me sinto um cidadão com a vida normal, apenas tomando imunossupressores para não ter rejeições”, comenta.
De acordo com ele, presidente da Associação dos Renais Crônicos da Bahia, em 2017, 1.131 pessoas que precisavam de um rim morreram em decorrência da ausência do órgão na Bahia.
Corretores
E é se aproveitando do desespero das pessoas que as pessoas por trás das mensagens tentam comercializar o órgão no mercado ilegal. Alguns dos aproveitadores, chamados de corretores, se aproximam das vítimas, sobretudo aquelas mais pobres, oferecendo uma oportunidade, um emprego.
Ganham a confiança e decidem abrir uma empresa juntos. Após algum tempo, dão um jeito de falir o negócio, deixando a vítima endividada. Sem dinheiro e com as dívidas se acumulando, a vítima entra em desespero e é nesse momento que o criminoso vem com a proposta: "Venda seu rim para pagar", conta José.
A coordenadora estadual de Transplantes, Rita Pedrosa, explica que existem pessoas que ficam 5, 6 anos na fila esperando o rim, mas outras que aguardam apenas 3 meses - e tudo isso sem haver um “furo” na fila.
"O que acontece é que o órgão doador tem que ter carga genética compatível com a do receptor. Então um rim com combinação genética X pode aparecer para o 11º da fila, e não para os outros. E isso é diferente da doação do fígado, por exemplo, que o paciente é contemplado quando tem uma pior situação", explicou.
Em Salvador, os transplantes de rins podem ser realizados no Hospital Ana Nery, no Hospital Geral Roberto Santos, no Hospital Português e no Hospital São Rafael. Todos eles têm filiação com o Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar o transplante.
A Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) explica que existem dois tipos de doadores de rins: os vivos e os falecidos. Os doadores falecidos têm que ter diagnóstico de morte encefálica e permissão dos familiares para estarem aptos à doação. Exames para atestar o funcionamento dos rins são realizados. O sangue do doador é, então, cruzado com o dos receptores. Os critérios de seleção do receptor são compatibilidade com o doador e tempo de espera em lista.
Os doadores vivos, tanto familiares, quanto não parentes, têm que ter autorização judicial para doarem os órgãos. Exames também são realizados para certificar o bom funcionamento dos rins, a compatibilidade sanguínea com o receptor e outras compatibilidades.

