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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Maceió:O mais votado,leito vereador com quase 25 mil votos, Lobão defende a tese de que ‘quem manda é o povo’

‘SE ME ENGESSAREM NA CÂMARA, A GENTE DESENGESSA NAS RUAS’

Ele é uma figura exótica para alguns, mas admirada por outros. Nascido na Vila Brejal, “o bairro que afunda na lama”, cresceu vendo amigos morrerem vítimas da violência e do tráfico de drogas. Perdeu pai e mãe, ambos ambulantes, ainda na juventude, mas nunca se desviou de um foco: a música. Fã do Raimundos e Mamonas Assassinas, hoje, Anivaldo Luiz da Silva, 39 anos, o Lobão (PR), com apenas o ensino médio completo é conhecido nacionalmente por seu currículo pouco comum, que inclui: produção de filme pornô, composições de rock para a banda Cheiro de Calcinha e articulações para resolver problemas comunitários. Foi isso que o levou para a política, em 2004, pelo PSB. De lá para cá, cresceu politicamente e fez um trabalho “formiguinha”, olhando para problemas que nunca eram vistos pelos políticos tradicionais de dentro de seus carros importados com película fumê. A bordo de sua mobilete vermelha, desviando de buracos e tomando chuva, sentiu na pele a angústia de quem vivia na informalidade como ele. Deste modo, com vitórias simples, mas significativas, conseguiu o respeito de idosos, jovens e de eleitores desacreditados com a política. O resultado: foi eleito com 24.969 votos para a Câmara de Vereadores de Maceió – proporcionalmente, a maior votação entre as capitais Brasil afora. Para essa façanha contou com amigos, as redes sociais e R$15 mil do fundo partidário do PR. A Gazeta foi em busca de conhecer melhor o jovem que gagueja, mas não titubeia em defender as suas opiniões, sempre com muita educação e calma.

Gazeta. O senhor é uma revelação na política para os que não leem, não acessam as redes sociais, nem consomem cultura alternativa. Então, para apresentarmos ao nosso leitor, quem é você?

Lobão. Sou um sonhador. Um cara que tem várias ideias e gosta de música. Gosta de empreender e que na tentativa de realizar o sonho de atuar com a nossa banda de rock, a Cheiro de Calcinha, nesse caminho esbarramos com algumas situações com as quais tivemos que se voltar para outros setores. Sendo o principal a política. Digo isso porque para atuar com a banda, com música própria e com rock, com poucas portas abertas tivemos que produzir show do gênero. E na batalha para fazer isso vi que tinham outros querendo tocar e não tinham espaço. Então, entendi que por meio da política poderíamos ser úteis para garantir isso.

Mas, se esse era um caminho, como surgiu as produções de filmes pornôs?

Por conta das dificuldades financeiras para produzir os shows e nossa música. Então, para capitalizar, nós tivemos que fazer isso, para fazer a feira, pagar as contas e tocar com a banda.

O que o senhor diz para as pessoas que lhe julgam mal por ter feito essas produções?

Eu não inventei a produção de vídeo adulta. Ela já era consagrada. Só atuei por um período nela, de 2004 a 2010. Então, depois que tive os primeiros 2 mil votos, com minha carreira política tive que juntar esforços e foco para isso. Quando fui vender os filmes na Guedes de Miranda, nós ficávamos ali na chuva, em 2007. Tentei batalhar a permissão para colocar cobertura, ou toldo, mas não consegui. Tentei me candidatar em 2008 e não tinha vaga. Em 2010, não tinha vaga e depois que um vereador desistiu eu entrei e tive pouco mais de 2 mil votos. Aí, com esses votos tive espaço e respaldo para conseguir o que queria. Quando cheguei no órgão competente aí minha votação abriu as portas e conseguimos.

O que é a política para o Lobão?

Rapaz... É uma coisa extremamente necessária e não deve ser confundida com politicagem. A política está em tudo, e a boa prática faz bem à sociedade. O que é ruim para a população é a política do mal. Da picaretagem, compra de votos. Essa aí mata gente, faz as pessoas adoecerem e contribui para que elas vivam menos e pior. Mas a boa política é importante e necessária.

Como o senhor percebeu sua força política: quando foi buscar soluções ou quando as pessoas passaram a lhe cobrar depois dos primeiros resultados?

A gente, sem ter o respaldo dos votos, foi defender a primeira bandeira, que foi a cobertura da praça [Guedes de Miranda]. Não conseguimos. Somente com o respaldo dos votos é que isso aconteceu. Foi a primeira porta. Como simples cidadão, não rolou, infelizmente. Aí nós percebemos outras demandas e fomos atrás. E também as pessoas começaram a me procurar para resolver os problemas, desde buracos nas ruas, postes sem iluminação entre outros. E a internet me ajudou muito porque eu divulgava e também recebia pedidos.

Como o senhor se sentia em ver tanta gente com mandato e você, sem ocupar cargo, se preocupando com os problemas coletivos?

Isso é curioso. Com mandato e com um jogo de cintura, além de compromisso dá para fazer muita coisa boa. Eu, particularmente, sempre achei massa não ter mandato e conseguir ser útil. E isso foi uma grande escola. Nós podemos, sem ser nada, se mexer. Agora, só se for um castigo, tendo um mandato e não puder ser útil. Porque a minha instigação e compromisso são os mesmos e temos uma grande ferramenta para trabalhar, Nossa ideia é trabalhar mais e melhor.

Mas o senhor chegou a apresentar algum programa ou propostas para os eleitores?

Sim. E inclusive distribuí para as pessoas. Temos a ideia de criar uma casa de apoio para acolher os acompanhantes dos internos que ficam pelas calçadas do HGE e antigo HDT, enquanto esperam o fim do tratamento dos pacientes. São pessoas que ficam sem ter onde tomar um banho, usar um banheiro, fazer um lanche. Vamos também lutar para a vinda do banheiro público para o Centro. Hoje já existe um, mas é modesto, ali na Praça Palmares. Mas queremos, além de melhorar esse, fazermos um no coração do Centro. Tem também a necessidade de um na praia para as pessoas daqui de Maceió e para os turistas. Queremos organizar os pontos de ônibus da Rua do Comércio, com paradas exclusivas por linhas, como em São Paulo, com formação de filas. Isso já está sendo debatido com a SMTT. Já está para chegar, inclusive, placas indicativas. Mas voltaremos a conversar para disciplinar melhor isso. É algo possível, mas os técnicos têm que avaliar.

Você foi eleito pela coligação que apoia o prefeito Rui Palmeira, que tenta a reeleição. Espera com isso realizar todos esses projetos?

Com certeza. Conto com isso. Além dessa aliança com o prefeito, espero contar com o ministro dos Transportes Maurício Quintela. Essa tríade será muito importante para Maceió, podem ficar certo disso. Há também um outro companheiro do partido, o Ib Breda, que foi eleito e vai contribuir muito também.

Desde a sua eleição, estão espalhando notícias na internet que você teria sido cooptado financeiramente pelo Ib Brêda e Maurício Quintella para migrar para o PR. De onde veio o dinheiro para a sua campanha?

O apoio que eu recebi foi único e exclusivamente do fundo partidário. Ele existe justamente para apoiar as candidaturas. E nós fizemos uma campanha bonita, pequena e barata. Quem quiser minha prestação de contas ela vai estar no site do TRE. Minha campanha custou R$ 15 mil. Você ter mais de 24 mil votos com esse dinheiro, não dá nem para comprar [risos]. Nossa campanha foi papel, muitos voluntários, internet, um carro de som rodando a música, além da junção de duas coisas: projetos realizados e novas ideias. Se nós já tínhamos realizações sem ter cargo, a população entendeu que era possível com um mandato.

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