SÃO PAULO – Heróis são os que, nas estórias, se sacrificam pelo bem dos outros. Diante de mais um ano de recessão e da perspectiva de que a economia siga como um zumbi nos próximos, a presidente Dilma Rousseff, seu partido, o PT, e sua base aliada só têm duas escolhas. A primeira é promover um forte e doloroso ajuste, capaz de recolocar o país nos trilhos no médio prazo. Na prática, isso significará um suicídio eleitoral, já que afastará os movimentos sociais do governo – seu último e precário apoio.
A segunda é ser imediatista, promover um voo de galinha, vencer as eleições municipais de 2016 e manter viva a esperança de seguir no poder em 2018, mas arriscando arruinar de vez a economia – e, com isso, azedar o humor dos eleitores daqui dois anos.“O governo precisa ser corajoso e escolher quem vai desagradar”, resume Carlos Melo, cientista político e professor do Insper.Confira, a seguir, os principais trechos de sua entrevista a O Financista:
O Financista: Há condições políticas para o governo aprovar a criação de uma banda fiscal e contingenciar o Orçamento?
Carlos Melo: No geral, as condições políticas não melhoraram muito. A pressão pelo impeachment arrefeceu um pouco, porque o [vice-presidente] Michel Temer, que parecia uma alternativa, mostrou-se bastante frágil. Se ele não consegue unificar o PMDB [seu partido], como unificaria o país? Mas o governo continua com muita dificuldade para controlar sua base. Para o Orçamento fechar, é necessário aprovar a CPMF e a DRU (Desvinculação das Receitas da União). É possível que a DRU passe, porque seu impacto não é tão imediato, quanto a criação de impostos. Os problemas viriam depois, quando o governo contingenciasse verbas e enfrentasse a resistência de grupos específicos. Mas, aí, o Congresso lavaria as mãos e deixaria que o governo se explicasse com sua base. Imagine o desgaste de contingenciar verbas para educação, saúde. Acredito que até o PSDB, agora, com uma nova liderança, possa votar a DRU com o governo, porque, no fim, é um presente de grego.
Carlos Melo: No geral, as condições políticas não melhoraram muito. A pressão pelo impeachment arrefeceu um pouco, porque o [vice-presidente] Michel Temer, que parecia uma alternativa, mostrou-se bastante frágil. Se ele não consegue unificar o PMDB [seu partido], como unificaria o país? Mas o governo continua com muita dificuldade para controlar sua base. Para o Orçamento fechar, é necessário aprovar a CPMF e a DRU (Desvinculação das Receitas da União). É possível que a DRU passe, porque seu impacto não é tão imediato, quanto a criação de impostos. Os problemas viriam depois, quando o governo contingenciasse verbas e enfrentasse a resistência de grupos específicos. Mas, aí, o Congresso lavaria as mãos e deixaria que o governo se explicasse com sua base. Imagine o desgaste de contingenciar verbas para educação, saúde. Acredito que até o PSDB, agora, com uma nova liderança, possa votar a DRU com o governo, porque, no fim, é um presente de grego.
O Financista: E a CPMF?
Melo: A CPMF é diferente, porque tem muito impacto. Não vejo o Congresso disposto a arcar com o desgaste de aprová-la. Também não vejo o PSDB, mesmo mais moderado, apoiar um aumento de impostos. Então, o governo não pode contar nem com a base, nem com a oposição. E o PT, em particular, tende a vir com propostas um tanto fantasiosas, como o aumento do Imposto de Renda para os mais ricos. Esse é um discurso apenas para contentar uma base mais fundamentalista. Vejo muita dificuldade de o governo cumprir suas metas. É por isso que o [ministro da Fazenda] Nelson Barbosa vem com a ideia de banda fiscal.
Melo: A CPMF é diferente, porque tem muito impacto. Não vejo o Congresso disposto a arcar com o desgaste de aprová-la. Também não vejo o PSDB, mesmo mais moderado, apoiar um aumento de impostos. Então, o governo não pode contar nem com a base, nem com a oposição. E o PT, em particular, tende a vir com propostas um tanto fantasiosas, como o aumento do Imposto de Renda para os mais ricos. Esse é um discurso apenas para contentar uma base mais fundamentalista. Vejo muita dificuldade de o governo cumprir suas metas. É por isso que o [ministro da Fazenda] Nelson Barbosa vem com a ideia de banda fiscal.
O Financista: Do ponto de vista político, flexibilizar a meta fiscal pega bem?
Melo: O governo está numa enrascada. Imaginemos que o Congresso aprove a DRU. O governo, então, remanejará verbas e cortará gastos na área social. Sua base vai reclamar, sobretudo os movimentos sociais mais à esquerda. Isso vai desgastar o governo justamente naqueles setores que ainda lhe dão um pouco de sustentação. Por outro lado, se não fizer isso, haverá um impacto imediato em indicadores importantes, como o dólar e a Bolsa. A confiança do investidor continua baixíssima. Por mais que o governo queira oferecer crédito para investimento, não há tomadores que queiram se aventurar. O governo precisa ser corajoso e decidir quem ele vai desagradar. Mas, objetivamente, ele não se decide. E também não tem capacidade de articulação.
Melo: O governo está numa enrascada. Imaginemos que o Congresso aprove a DRU. O governo, então, remanejará verbas e cortará gastos na área social. Sua base vai reclamar, sobretudo os movimentos sociais mais à esquerda. Isso vai desgastar o governo justamente naqueles setores que ainda lhe dão um pouco de sustentação. Por outro lado, se não fizer isso, haverá um impacto imediato em indicadores importantes, como o dólar e a Bolsa. A confiança do investidor continua baixíssima. Por mais que o governo queira oferecer crédito para investimento, não há tomadores que queiram se aventurar. O governo precisa ser corajoso e decidir quem ele vai desagradar. Mas, objetivamente, ele não se decide. E também não tem capacidade de articulação.
O Financista: Parece que o governo não conseguiria nem mesmo viver de aprovar nomes de rua em Brasília...
Melo: Sempre me perguntam se a Dilma vai sofrer um impeachment. Eu digo a todos que a questão não é essa. Sinceramente, essa é uma discussão errada. O ponto é o seguinte: continue ela, ou não, é preciso encontrar uma saída. Qual é a agenda, caso o governo continue? E qual é a agenda se ela sair? O governo teve quase 60 dias de recesso do Legislativo para apresentar alguma coisa concreta. Para chamar vários atores, inclusive a oposição, para discutir uma agenda que, pelo menos, minimize a crise. E não fez isso. O governo tem de governar. Se não governa, fica numa situação complicada. Acrescente-se a isso todos os outros problemas: Lava Jato, Zelotes...Um dos pilares de qualquer governo é a confiança que inspira. O governo tem de recuperá-la rapidamente. Mas, sem agenda e sem capacidade de articulação, isso fica muito difícil.
Melo: Sempre me perguntam se a Dilma vai sofrer um impeachment. Eu digo a todos que a questão não é essa. Sinceramente, essa é uma discussão errada. O ponto é o seguinte: continue ela, ou não, é preciso encontrar uma saída. Qual é a agenda, caso o governo continue? E qual é a agenda se ela sair? O governo teve quase 60 dias de recesso do Legislativo para apresentar alguma coisa concreta. Para chamar vários atores, inclusive a oposição, para discutir uma agenda que, pelo menos, minimize a crise. E não fez isso. O governo tem de governar. Se não governa, fica numa situação complicada. Acrescente-se a isso todos os outros problemas: Lava Jato, Zelotes...Um dos pilares de qualquer governo é a confiança que inspira. O governo tem de recuperá-la rapidamente. Mas, sem agenda e sem capacidade de articulação, isso fica muito difícil.
O Financista: O Congresso pressionará o governo em busca de verbas, por causa das eleições municipais, mesmo que os parlamentares falem de austeridade fiscal...
Melo: Pode até pressionar, mas a questão é: o governo tem como liberar alguma coisa? Não tem mais dinheiro. Haverá uma gritaria enorme dos candidatos a prefeito, sejam da oposição, sejam da base aliada. Vão dizer que a culpa da situação dos municípios é do governo federal.
Melo: Pode até pressionar, mas a questão é: o governo tem como liberar alguma coisa? Não tem mais dinheiro. Haverá uma gritaria enorme dos candidatos a prefeito, sejam da oposição, sejam da base aliada. Vão dizer que a culpa da situação dos municípios é do governo federal.
O Financista: Por pura falta de dinheiro?
Melo: Sim. A alternativa é que o governo comece a produzir inflação. Isso significa queda de renda. Se o governo é frágil, também se torna alvo de sindicatos e movimentos sociais, que vão defender a recomposição de renda. Essas reposições vão retroalimentar a inflação. No fim, será terrível ver que um esforço de 20 anos foi para o lixo. Nesse clima, podemos voltar à situação anterior ao Plano Real, o que seria um retrocesso imenso. O governo e o PT terão de escolher como querem passar para a História. Eles podem entrar para a História quebrando a cara eleitoralmente, mas preservando o país. Ou se preocuparem apenas consigo mesmos.
Melo: Sim. A alternativa é que o governo comece a produzir inflação. Isso significa queda de renda. Se o governo é frágil, também se torna alvo de sindicatos e movimentos sociais, que vão defender a recomposição de renda. Essas reposições vão retroalimentar a inflação. No fim, será terrível ver que um esforço de 20 anos foi para o lixo. Nesse clima, podemos voltar à situação anterior ao Plano Real, o que seria um retrocesso imenso. O governo e o PT terão de escolher como querem passar para a História. Eles podem entrar para a História quebrando a cara eleitoralmente, mas preservando o país. Ou se preocuparem apenas consigo mesmos.
O Financista: O que, objetivamente, o senhor espera da política em 2016?
Melo: O grande problema é o seguinte: há um ajuste seríssimo a ser feito, mas não há incentivos políticos para isso. Na política, pelo menos até 2018, a opção é perder ou perder. Você faz um ajuste e até recupera a economia, mas seus desafetos dirão, no máximo, que você levou o país à crise devido à sua enorme incompetência e não fez mais que a obrigação de tirá-lo de lá. Já aqueles que estão com você e sofrerão com o ajuste vão abandoná-lo. Este é um governo solitário. Não vejo o PT apoiando um ajuste profundo e rápido. Já a oposição pode até votar com o governo, mas, evidentemente, não vai aderir a ele, nem salvar o PT do desastre. Então, os incentivos políticos para fazer a coisa certa são muito pequenos no curto prazo. No longo prazo, pode até ser reconhecido por ter a coragem de fazer a coisa certa. Mas, até aí, já terão passado as eleições de 2018, 2022, 2026...
Melo: O grande problema é o seguinte: há um ajuste seríssimo a ser feito, mas não há incentivos políticos para isso. Na política, pelo menos até 2018, a opção é perder ou perder. Você faz um ajuste e até recupera a economia, mas seus desafetos dirão, no máximo, que você levou o país à crise devido à sua enorme incompetência e não fez mais que a obrigação de tirá-lo de lá. Já aqueles que estão com você e sofrerão com o ajuste vão abandoná-lo. Este é um governo solitário. Não vejo o PT apoiando um ajuste profundo e rápido. Já a oposição pode até votar com o governo, mas, evidentemente, não vai aderir a ele, nem salvar o PT do desastre. Então, os incentivos políticos para fazer a coisa certa são muito pequenos no curto prazo. No longo prazo, pode até ser reconhecido por ter a coragem de fazer a coisa certa. Mas, até aí, já terão passado as eleições de 2018, 2022, 2026...
O Financista: O reconhecimento da História não é nenhum incentivo para o governo...
Melo: A partir de 1999, com a mudança do regime cambial e com tudo o que veio depois, como o apagão de 2001, o governo Fernando Henrique caiu em desgraça. Os candidatos tucanos viraram as costas para o Fernando Henrique em 2002, 2006 e 2010. Agora, em 2014, o Aécio reconheceu um pouco seu papel. Talvez, em 2018, os tucanos reconheçam mais. Mas veja: estamos falando de 18 anos! Foram quatro eleições dadas para o adversário. A História pode até reconhecer o governo, mas o timing da História é totalmente diferente do político. Seriam necessários novos estadistas que se sentassem e pactuassem uma agenda mínima para tirar o país da crise. Mas você não tem agenda e nem lideranças políticas, no plural, para isso.
Melo: A partir de 1999, com a mudança do regime cambial e com tudo o que veio depois, como o apagão de 2001, o governo Fernando Henrique caiu em desgraça. Os candidatos tucanos viraram as costas para o Fernando Henrique em 2002, 2006 e 2010. Agora, em 2014, o Aécio reconheceu um pouco seu papel. Talvez, em 2018, os tucanos reconheçam mais. Mas veja: estamos falando de 18 anos! Foram quatro eleições dadas para o adversário. A História pode até reconhecer o governo, mas o timing da História é totalmente diferente do político. Seriam necessários novos estadistas que se sentassem e pactuassem uma agenda mínima para tirar o país da crise. Mas você não tem agenda e nem lideranças políticas, no plural, para isso.


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